sábado, 2 de abril de 2011

Ao vencedor, as batatas!

Ao vencedor, as batatas!
Marcelo Moreira

Como explicar o sentimento de perda diante de uma não vitória? Há como?
Penso que a história muitas vezes nos mostra que sim. É grande a galeria de desportistas campeões que não nos saem da lembrança.
Mas existem exemplos claros que a competição sadia valoriza a todos que se propõe a participar, a brigar, a dar sangue, a dar amostras de seus talentos.
Não quero aqui ressaltar o jargão politicamente correto que diz “O importante é competir”. Não! O importante é fazer, é mostrar, é realizar e, partindo deste princípio, não existe um vencedor, existem vencedores.
Vencer é bom, gostoso, alimenta nosso ego, mas não se pode esquecer o caminho percorrido, a realização que é fazer, que é construir uma história por meio do que se pode sonhar.
Provavelmente pouca gente se lembra da vencedora da maratona feminina das olimpíadas de 1984 (http://www.youtube.com/watch?v=t2_Xu7AXAdY), duvido que alguém queira ver um velho vídeo da americana vencedora, no qual ela está ultrapassando a linha de chegada...
Mas existe uma imagem desta prova que está eternizada. A 37a colocada, a Suíça Gabriele Andersen de 39 anos que adentrou o estádio olímpico de Los Angeles toda torta e passando mal, caminhava com muita dificuldade, mas não tirava os olhos da linha de chegada.
Eu me lembro como se fosse hoje, eu tinha 13 anos, os olhos de minha mãe lacrimejavam ao ver aquela mulher sem forças caminhando como se estivesse bêbada.
Em um determinado momento, um médico correu pra ela, mas ela não permitiu aproximação. O médico então passou a andar do seu lado e, comovido, gritava palavras de incentivo.
Outros profissionais de saúde passaram a andar na beira da pista, sem se aproximar. Gabriele, sem forças, cruzou a linha de chegada e caiu, mas os três médicos não deixaram que o corpo daquela gigante tocasse o chão.
Naquele momento Gabriele entrou pra história. O mundo aplaudia e chorava de boca aberta pela 37a colocada. A primeira colocada, esta é apenas mais uma campeã.
Não quero aqui minimizar a conquista dos campeões, a eles os louros e o mérito de ter mostrado algo diferente que os colocou nesta condição.
O que quero aqui é exaltar aqueles que tinham na competição um motivo para desfilar seu talento, mostrar seu trabalho, tenho certeza que, neste caso, a mensagem terá sido transmitida.
Apurar os sentidos
Carpe Diem
Aquela poderia ser mais uma manhã, como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô. Vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal. Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes Bell havia tocado no Simphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.” (O Verdadeiro Luxo, artigo de Márcia Bindo, publicado pela Revista Vida Simples, Edição 60, Dezembro de 2007).
Todos os dias quando subo a Serra da Mantiqueira, a caminho do trabalho, em Campos do Jordão, sou agraciado com a possibilidade de vislumbrar a exuberante paisagem natural que abraça a malha de asfalto que leva as pessoas àquela localidade. São inúmeras as espécies vegetais e animais que povoam aquela mata. Árvores, flores, arbustos, cachoeiras, raposas, esquilos, aves das mais variadas espécies e algumas outras surpresas podem ser vistas todos os dias por aqueles que por ali passam...
Depende apenas de apurarmos os sentidos... De olharmos com profundidade... De irmos além daquilo que é óbvio e evidente aos nossos sentidos... Temos que aprender a ler o mundo em suas entrelinhas...
E o que temos feito até o presente momento? Na maioria dos casos apenas perambulamos pelo mundo com nossos sentidos direcionados como se fôssemos cavalos puxando carroças, orientados pelo cabresto e mobilizados pela força do chicote que é batido em nossos lombos... Não aprendemos a diferenciar sabores... Raramente somos educados para apreciar a música em sua totalidade... Desprezamos a diversidade das cores e tons... Poucas pessoas são capazes de realmente discernir odores e fragrâncias... Estamos perdendo até mesmo a força do toque, do tato, do encontro físico...
Preferimos à virtualidade... Escolhemos a distância e a ausência... Vivemos nos desencontrando... Comemos aquilo que é pasteurizado, sem sabor, sem gosto... Nossas existências estão perdendo o calor, as emoções... Desconectados dos homens e da natureza, vivemos existências tristes e tentamos compensar consumindo...
Trocamos as sensações profundas de prazer e satisfação, que se constroem ao longo do tempo - com parcimônia, paciência e sabedoria – por experiências fugazes, velozes, inodoras, insípidas e incolores...
Hoje, nas escolas, se ensina eficiência. Mercado é a palavra-chave do ensino e da vida. Produção, consumo e lucro superam longe qualquer idéia relacionada à espiritualidade, valores e sentimentos...   
A curta narrativa que inicia essa reflexão, que nos conta a história de Joshua Bell e seu violino Stradivarius, tocando ininterruptamente por 45 minutos na entrada de uma estação de metrô é apenas um indicativo de como estamos ficando insensíveis... O que aconteceu com Bell está também ocorrendo com o planeta, devastado pelo aquecimento global... Situações semelhantes são aquelas em que pessoas morrem de fome por falta de solidariedade ou assistência... Tudo isso igualmente nos faz lembrar dos analfabetos, das vítimas das guerras, dos agredidos em virtude da intolerância, dos jovens que perdem a vida em função das drogas,...
Que mundo é esse que estamos construindo?
Aquarela
Toquinho
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul

Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando,
é tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
e se a gente quiser ele vai pousar....
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida,
depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (e descolorirá)
Toquinho
(Cantor e Compositor Brasileiro)

Existe uma criança linda dentro de você. Provavelmente já lhe disseram isso e você, por teimosia, descrença ou absoluta falta de imaginação desprezou a afirmação. Então tente ficar inerte diante da composição Aquarela, de Toquinho; ou leia O Menino Maluquinho de Ziraldo e tente não sentir saudades de sua infância...
A criança nunca deixou de existir. Nem por um momento sequer. É que muitas vezes o adulto que a encerra deixou de sonhar. Parou de acreditar na Terra do Nunca, deixou de pensar que pode voar como seus mais amados super-heróis, não quis mais saber da Emília e do Visconde, esqueceu da bola ou da boneca,...
Agora só quer saber de correr. Parece o coelho da Alice e a todo o momento olha seu relógio. Está encarcerado numa rotina estressante que o faz cativo sem que nem ao menos se dê conta. Não sabe por que corre. Acha que se não fizer isso será atropelado, passado para trás, superado por outros, que nem ao menos conhece...
E o pior de tudo é que esse adulto, como os piratas do Peter Pan, não quer nem mesmo que as crianças sejam crianças por mais tempo. Faz força para acelerar o relógio biológico de nossas crianças para que não sejam mais infantis. Para que brincar? O negócio é namorar. Por que desenhar e pintar? É melhor ir para o Shopping. Subir em árvore ou ir ao parquinho? Que tal ir fazer umas compras...
As crianças não podem mais subir em árvores. Nem, tampouco, devem assistir desenhos animados. Acreditar em coelhinho da páscoa ou em Papai Noel então, é terminantemente proibido. Se seu filho usa roupas que tenham desenhos como o Mickey, a Mônica ou o Pernalonga depois de certa idade... provavelmente ele será alvo de chacotas e ridicularizações por seus pares na escola, no clube, na rua,...
E por que as crianças não querem mais fazer desenhos com o contorno das mãos ou navegar num barco com suas grandes e bonitas velas brancas estendidas como nos diz Toquinho em sua clássica composição? Será que os sonhos da infância não estão sendo massacrados por nossa ausência e indiferença? Quando foi a última vez que você se sentou para brincar com seus filhos?
Ouvi de uma pessoa religiosa que a catequese de nossas crianças é feita desde o seu nascimento e que os principais catequizadores são os próprios pais... Seu filho é fruto de seu envolvimento com a vida dele... Sua saúde física, mental e emocional está em suas mãos. Reserve a criança que há dentro de você para brincar com ele. Isso é o que realmente ficará para sempre...
Assim eu vejo a vida
Cora Coralina
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Sábias são as palavras que com simplicidade conseguem explicar o mundo em que vivemos. Sabedoria essa que está em extinção se nos atrevemos a estender os nossos olhares além dos próprios umbigos e prestamos atenção ao que dizem os demais. Há explicações em demasia e poucas delas conseguem ser simples e convincentes.
Se o tema dessas ponderações é a vida, mais difícil ainda se torna a nossa compreensão. O mundo nos parece nebuloso ao extremo quando tentamos ouvir as pessoas falando sobre a sua compreensão do que seria a vida.
O passado tem sido esquecido. O presente é o que importa. Nem mesmo o futuro parece de alguma forma nos levar a pensar com maior clareza a nossa existência. Se antes queríamos fazer do Brasil o país do futuro, hoje parecemos apenas nos importar com os assuntos imediatos, do momento que estamos vivendo.
Por mais que o passado tenha sido duro ou difícil, não podemos nos desvencilhar dele ou desprezá-lo. Suas lições têm que nos acompanhar hoje e sempre. Das lágrimas do que foi vivido sobrou a maturidade. Dos sorrisos que foram dados, permaneceu a esperança e a confiança em dias melhores.
É preciso saber viver e dignificar a condição humana. Aceitar que temos limitações e tentar superar as mesmas também compõe a nossa natureza. Acima de tudo temos que nos mostrar seguros e sólidos quanto as nossas crenças, a nossa filosofia e a ética que norteia nossas vidas, exatamente como a grande poetisa Cora Coralina...
Carta Aberta a Marx
Num mundo sem ideologias e bandeiras...
“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.”
“De nada valem as ideias sem homens que possam pô-las em prática.”
“Quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro e ao café, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim, todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.”
Karl Marx
(Filósofo Alemão)
Amigo Karl,
Lembrei-me daquela sua frase de impacto que abre um de seus principais trabalhos, o "Manifesto". Você dizia que "um fantasma ronda a Europa". Certamente para tal período pensar em tais dimensões, ou seja, continentais, já parecia por demais de soberbo ou até mesmo exagerado na visão de tantas pessoas. Hoje temos que ir muito além do Velho Continente, do Novo ou mesmo do Novíssimo, pois que tal fantasma ronda todos os países do globo. Nesse aspecto vale rememorar um de seus principais discípulos, o Wladimir, aquele que liderou os russos em sua luta pela "ditadura do proletariado" e que depois teve que ceder espaço para um "déspota" nem um pouco esclarecido.
Lênin falava em "imperialismo como fase superior do capitalismo"... Talvez os termos estejam um tanto quanto em desuso, em virtude da desideologização dos embates e do próprio esvaziamento de qualquer disputa que hoje ocorra no planeta, exceto aquela que se processas à custa de fanatismos religiosos... Não mais cabe pensar em imperialismo talvez porque, apesar do Império do Tio Sam ainda existir e, da visível expansão do poderio e influência chinesa, por trás das bandeiras e nacionalidades estão os produtos, o comércio, as vendas, a lucratividade e a tal de "mais-valia" que você tão bem soube definir...
É Karl, o Materialismo triunfou, e não falamos aqui do Dialético ou tampouco do Histórico... O que prevaleceu foram os hábitos de consumo, o consumismo embalado pelos sonhos vendidos diariamente pelo marketing direto ou indireto, consciente ou inconsciente... Comprar é o verbo mais conjugado em todos os idiomas... No cartão de crédito, cheque ou dinheiro, tanto faz, o que importa é adquirir, dando em troca o suor do rosto, traduzido na forma de dinheiro, que de mero elemento de intercâmbio, tornou-se o maior dos pivôs de todas as grandes batalhas...
O Socialismo também virou produto. Tentaram exportar. Ninguém se preocupou em explicar ou ver se as pessoas queriam aceitar e assim viver... O comunismo, este já nem incomoda mais, nem os fascistas de plantão acreditam que tal fantasma, cadáver ou presunto (se é que algum dia chegou mesmo a tornar-se corpo - com músculos, sangue, carne e ossos) irá ressurgir tal qual o Jason, aquele de tantas Sextas-Feiras 13...
A verdade é que poucos entenderam ou se dispuseram a ir a fundo em suas brilhantes análises e teorias... Aqueles que conseguiram, quiseram empunhar as bandeiras de um mundo mais justo, equilibrado, harmônico, fraterno e de partilha... Tornaram-se mártires, enfeitam camisetas, boinas, bonés, pôsteres nas paredes, dão origem a filmes... Viraram produto, irônico, não é? De combatentes do Capital, transformaram-se em meios ou canais de obtenção de mais recursos, de mais fundos, de mais dinheiro... Viraram pó e, deste pó, tal qual a Fênix, transformaram-se em Capital...
Engels, seu parceiro de tantas obras e embates, creio eu, talvez tenha compreendido melhor como isto funciona, tendo em vista que durante suas vidas foi patrocinador de sua obra com dinheiro proveniente do capital das empresas familiares...
Mas não pense que o sonho acabou, só para lembrar outro cabeludo que por aqui passou... Suas lutas deram origem a direitos trabalhistas, a sindicatos, a revoluções (que infelizmente foram superadas pelo poder do capital e da ambição individual dos homens) e a uma centelha de sonho que ainda vive dentro de muitas pessoas, entre as quais, creio... Até em mim! E que sonho é este? Aquele de um mundo melhor, mesmo que para isto tenhamos que reinventar o capitalismo e as formas de opressão por ele geradas e por ti preconizadas...
Talvez o advento dos Verdes e de sua luta por um mundo menos poluído e devastado pela ambição consiga nos levar para uma realidade mais sustentável - tanto no que tange ao meio ambiente quanto no que se refere aos homens e seus pares...
É Karl, obrigado pelas lições, elas ainda estão por aqui, um tanto quanto inertes e insones neste momento, mas sobrevivem, seu legado enriqueceu a humanidade, mesmo que isto, aos seus olhos possa parecer um tanto quanto herético... O que vamos fazer dele ou com ele é a pergunta que permanece em tantas cabeças...
Pra você, um grande abraço!

Amanhã

Amanhã
Guilherme Arantes

Amanhã será um lindo dia, da mais louca alegria
Que se possa imaginar, amanhã, redobrada a força
Pra cima que não cessa, há de vingar

Amanhã, mais nenhum mistério, acima do ilusório
O astro-rei vai brilhar, amanhã a luminosidade
Alheia a qualquer vontade, há de imperar, há de imperar

Amanhã, está toda esperança, por menor que pareça
O que existe é pra vicejar, amanhã, apesar de hoje
Ser a estrada que surge, pra se trilhar

Amanhã, mesmo que uns não queiram será de outros que esperam
Ver o dia raiar, amanhã, ódios aplacados, temores abrandados
[Letra e Música de Guilherme Arantes]
          O sol brilha no horizonte. As árvores, frondosas e floridas, anunciam a primavera. As cores prevalecem na natureza. Os odores agradáveis se espalham pelo ar. Você está percebendo tudo isso? O quanto de todo esse movimento está sendo presenciado através de seus sentidos?
          Temos esta oportunidade todos os dias. Não damos o devido valor às coisas simples e belas que nos rodeiam. Ficamos projetando tudo para o amanhã, em que residem nossas esperanças, os dias mais luminosos, o vicejar das plantas que deixamos de vislumbrar no dia de hoje.
          Nossa louca alegria, cantada por Guilherme Arantes nesse clássico da Música Popular Brasileira, que nos dobra as forças e orienta os passos para a felicidade, tem que ser vivida ao longo de todo o trajeto. Não podemos ficar imaginando que o melhor é o pódio, a medalha, a conquista final...
          Cada movimento que realizamos para a consecução de nossos sonhos de vida tem que ser devidamente saboreado, festejado. Seja na vida pessoal ou profissional. Não é o troféu na estante que nos dá a melhor sensação do mundo, mas a recordação de tudo o que fizemos para que ele pudesse estar ali, ao alcance de nossos olhos.
          Passar numa prova, fechar um contrato, escrever um livro, ter um filho ou compor uma música são conclusões, fechamentos [e/ou inícios] de fases, etapas, trabalhos, projetos e experiências de vida. Degustar cada momento, bom ou ruim, entendendo que para chegarmos aos resultados finais com vitória iremos também ter que passar por alguns maus bocados, é o que deveríamos fazer...
          Quando o amanhã chegar, mistérios e ilusões dos dias que o precederam já vencidas, novas provações e possibilidades, dores e sabores, derrotas e vitórias estarão nos esperando e, de cada uma delas, devemos provar do seu sabor doce ou amargo...
Anoitecer
Desta hora não quero mais ter medo
É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos aflitos, pungentes, trágicos, uivando escuro segredo; desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta, mas de há muito não há pássaros; só multidões compactas escorrendo exaustas como espesso óleo que impregna o latejo; desta hora tenho medo.
É a hora do descanso, mas o descanso vem tarde, o corpo não pede sono, depois de tanto rodar; pede-se paz – morte – mergulho no poço mais ermo e quedo; desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza, agasalho, sombra, silêncio. Haverá disso no mundo? É antes da hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, meu futuro, meu degredo; desta hora, sim, tenho medo. (Carlos Drummond de Andrade)
Há um versículo bíblico que diz que “há tempo para todo propósito debaixo do sol”, ou seja, não é preciso ter pressa: haverá tempo para nascer, crescer, desenvolver e... morrer. Quando comparamos o tempo de hoje ao tempo de ontem, percebemos que os conceitos mudaram muito e a pressa do homem tem o feito perder a essência e o prazer de muitas coisas.
Dá para sentir saudades daquele “café da tarde” tomado junto a amigos e familiares. Tudo tinha um sabor diferente, não havia o “luxo” conquistado com tanta dor que temos hoje: um pão com manteiga, um café com leite, um bolo de fubá, tudo era degustado com mais calma. Hoje, até mesmo os nossos alimentos mais simples são feitos por mãos desconhecidas, afinal de contas, não temos mais tempo para nos dedicar ao preparo de alimentos...
Tudo isso é apenas o reflexo da mudança de valores que a sociedade tem sofrido, muitas vezes regidas pelo o que a mídia diz que é o correto. Há uma busca desesperada por melhores salários, melhores posições e, até mesmo quando se atinge tais objetivos, não se encontra satisfação. Hoje o dinheiro é exaltado em detrimento do amor à família, ao descanso e a Deus.
No poema acima, o autor fala sobre mudanças drásticas nos hábitos da vida da cidade comparando-a com a vida do campo. Tais mudanças fazem com que ele sinta medo da hora do anoitecer, ou seja, da hora que temos de parar a nossa árdua jornada, voltar para casa e descansar.
O que deveria ser uma hora de satisfação e de felicidade, o anoitecer tem sido o contrário, pois até o trajeto de retorno ao lar é tumultuado e perturbado por buzinas dos carros de motoristas impacientes.
Não há muito tempo para um sorriso de “bom-dia” (a não ser para aqueles que nos são convenientes). A hora que dantes era de delicadeza, agasalho, sombra, silêncio - características de proteção e de afago sem palavras, já que estas são dispensáveis quando se tem o verdadeiro amor - tornou-se a hora do medo, pois “não há muito disso no mundo”.
É tempo de encararmos os nossos medos e pensarmos em modelos de vida mais saudáveis, mais significativos e mais sábios, para que possamos dizer do anoitecer que “desta hora, sim, não tenho mais medo”.

Carpe Diem

Paulo Freire
Educador Brasileiro
Vivemos em rede. Conectados. Plugados. Praticamente 24 horas por dia online. Pela Internet, através de nossos computadores e celulares, vamos do Brasil ao Japão em segundos. Temos contatos em todos os cantos do mundo. A tecnologia nos permite este assombro e nos abre possibilidades fantásticas. Estamos na “rede cercada de gente por todos os lados”.
Mas quem realmente conhecemos? Com quem convivemos? Onde estão as pessoas de carne e osso? E quando elas estão próximas mesmo, estendemos as mãos para elas? Sabemos quais são seus interesses, ideias, princípios? De que valem as redes se elas conectam, criam links, mas não permitem o estabelecimento de laços reais, profundos e verdadeiros entre as pessoas?
As escolas, como nos lembra Paulo Freire - com sua sabedoria própria e peculiar, simples e devastadora - só se constituem de forma plena enquanto ambientes de aprendizagem se a percebermos (e a realizarmos) indo além do estudo e do trabalho, seus elementos basilares...
Ir à escola para estudar é apenas pretexto e ainda não nos demos conta... A educação encerra possibilidades muito maiores e, ainda, possibilita a aprendizagem, literalmente como efeito colateral, a partir da interação, do encontro, da concretização de laços afetivos, da definição de objetivos comuns e da camaradagem...
E qual o maior ponto de encontro senão o fato de sermos todos seres humanos, gente de carne e osso, com nossas qualidades e fraquezas, medos e inseguranças, vitórias e conquistas? Professores, diretores, alunos, pais, funcionários e todos os elementos que estão na escola reúnem-se a partir da premissa da educação, mas este nobre propósito só se efetiva se conseguirmos criar elos que nos aproximem e que nos permitam unificar ações utilizando a riqueza que há em nossa diversidade...
Passar pela escola, ou ainda, em maior instância, pela vida, sem “criar laços de amizade”, “ambiente de camaradagem”, ou ainda sem “se amarrar nela”, como nos lembra com lirismo o mestre Paulo Freire, não é viver, é apenas sobreviver...
E no mundo de hoje, paralelos entre a escola e a sociedade, aceleradas, mas aparentemente perdidas quanto ao destino, nos conclama a refletir quanto ao mundo e a vida que queremos, para nós mesmos e nossos descendentes, amigos, parentes, vizinhos, conterrâneos...
Que escola desejamos? Que redes estamos construindo? Que vida almejamos? Pare. Pense. Se articule para chegar aonde realmente quer ir... Vá além dos prédios, dos livros, dos conteúdos... Ultrapasse o computador, o celular, as redes, a internet... Chegue nas pessoas, abrace seu próximo, estimule o companheirismo, seja amigo... Afinal de contas, é nisto que reside o objetivo final de todos e de qualquer um, simplesmente, na felicidade... E não há maior felicidade no mundo que o encontro fraterno e verdadeiro entre as pessoas...

“Maluco Beleza”
Misturando lucidez e maluquez...
Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual...
Eu do meu lado
Aprendendo a ser louco
Maluco total
Na loucura real...
Controlando
A minha maluquez
Misturada
Com minha lucidez...
Vou ficar
Ficar com certeza
Maluco beleza...
Raul Seixas
(Cantor e Compositor Brasileiro)
Os limites entre a lucidez e a insanidade, de tão tênues, passam despercebidos pela maioria das pessoas. E, mais do que isto, no mundo em que hoje vivemos, de ritmo tão alucinado e frenético, cruzar as linhas que delimitam aquilo que é considerado são para o que chamamos de loucura torna-se tão frequente que a percepção da sanidade e da insanidade foi ficando cada vez mais difícil...
Afinal de contas, quem é louco e quem é lúcido?
Lúcido é o sujeito que vive dentro daquilo que chamamos de normalidade podem dizer muitos. Mas a que normalidade se referem? Aquela que nos leva de casa ao trabalho e do trabalho para casa, num movimento sem fim em que fazemos tudo igual, com pouca ou nenhuma alteração de nossos cotidianos?
Lúcido é quem paga contas, pratica esportes, corta cabelo, escova os dentes, faz compras, muda de emprego, confere o saldo bancário ou vai ao cinema? Normal pode ser considerado o sujeito que ama a vida e não se submete a estereótipos, mantém sua originalidade, dá passos firmes em direção a trajetórias que escolheu por conta própria e que o fazem sentir real prazer em estar vivo, respirando, pensando...
E o louco? Quem é? Pode ser o Chico Picadinho, que corta em pedaços suas vítimas ou o Maníaco do Parque, para citar os casos mais notórios de insanidade, pensam tantos outros. A loucura estaria então nos atos impróprios e, principalmente, violentos...
Mas, e os loucos que oferecem flores e se isolam do mundo por opção, pois não se sentem incluídos? Sua reação, não violenta, não agressiva, denota loucura pela busca de um espaço onde se sintam melhor, onde se percebam dentro... Que tanto há de loucura nisto? E quais são os locais onde se refugiam? Dentro de si mesmos? No meio do mato? Na química que os isola e os aniquila?
Raul estava certo quando dizia que “controlamos” a nossa maluquez e a misturamos a uma esperada “lucidez”... Trazia a tona a lógica tão apropriada e adequada a este milênio, aquela do ditado popular que diz termos um pouco “de médico e de louco”, todos nós...
Mesmo os mais lúcidos já transgrediram e precisam disto como necessitam do ar que respiram... Ainda que diagnosticados como insanos, há muito mais lucidez por trás dos atos de muitos loucos do que imaginamos e jamais nos daremos conta disso, pois não queremos ouvir o que dizem, entender o que pensam, nos dispor ao diálogo com eles...
O certo é que, na vida, não há certos definitivos, assim como, por conseguinte, não é possível definir e estabelecer de forma igualmente definitiva, quem são os loucos e os lúcidos entre nós...
A inevitabilidade da dor e a opcionalidade do sofrimento
Autoria Desconhecida
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
(Autor Desconhecido)
Nosso egoísmo constantemente nos compele a reclamar da vida. Achamos ruim porque o trânsito está congestionado. Resmungamos em virtude da fila do banco. Nos sentimos infelizes por nossos saldos bancários. Invejamos aqueles que têm mais do temos. Queremos a onipotência e a onipresença que nos garanta estar em todos os cantos desfrutando de autoridade e força perante qualquer um...
Quando fazemos isso despertamos, inconscientemente, a fúria dos céus. Como ousamos reclamar tanto se temos saúde? O que nos leva a desfilar nosso rosário de queixas se estamos empregados e trabalhando? Por que queremos ter mais do que temos se vivemos confortavelmente? Que motivos nos fazem infelizes se desfrutamos do amor e do carinho de nossos mais próximos entes?
Parece que em momento algum de nossas vidas nos sentimos totalmente bem, da forma como tanto almejamos. Somos escravos de um modo de vida consumista e nos perdemos diante de tantos desejos que são propositalmente colocados em nossas cabeças. Somos pequenos demais para compreender que as maiores alegrias de nossas vidas podem ser resumidas apenas nos sentimentos mais puros que temos em relação aos amigos e familiares e que, em contrapartida, recebemos dos mesmos...
Nos descabelamos por motivos banais. Arremetemos muitas vezes essa nossa insatisfação em direção às pessoas que fazem a vida valer a pena. Destilamos nosso rancor e amargura em nosso ambiente de trabalho e acabamos magoando pessoas que só nos querem bem. Já parou para pensar nisso? Quantas pessoas queridas você magoou somente por não ter conseguido aquela promoção ou o carro novo com que sonhava?
Não podemos permitir que sejamos prisioneiros dessas pequenas e injustificadas faltas ou ausências materiais. O que nos resta depois de toda a vida percorrida senão o abraço forte, o afago carinhoso, o beijo apaixonado ou a mão que nos ajuda a levantar quando somos derrotados? É desse memorial que devemos tirar a razão de viver.
Temos que arriscar mais. Não podemos deixar a vida passar sem ter dito com plenas palavras o quanto amamos alguém. A chuva que cai lá fora está lhe convidando para um reconfortante e refrescante caminhar, porque não ir? O mergulho na água do mar está lhe fazendo falta, o que lhe impede de estar lá, aproveitando a vida? A ausência de uma pessoa querida o magoa e fere a ponto de doer o coração, que tal ir de encontro a esse amor?
Não permita que a vida passe ao largo sem que você possa curtir cada momento precioso que temos nesse mundo. Sorria para a vida e para as pessoas. Temos apenas alguns anos de existência e cada minuto deles deve ser sorvido como a melhor refeição que já tivemos a oportunidade de experimentar. Dê a si mesmo o maior de todos os presentes, a felicidade...
O autor trouxe a nós a alegria a partir de suas poesias e textos. Deixou-nos um legado de valor inestimável e através de suas palavras nos permite vôos altos rumo a imensidão dos céus e mergulhos profundos em direção a necessária compreensão de nossas almas e existências. Sorver cada uma de suas preciosas letras é também um exercício de satisfação na busca pela paz interior que tanto desejamos...






















































































































































































































































A Natureza se Recria
Hélio Arakaki
A natureza sempre decide em se recriar. E você também é a natureza.

Conta certa história que dois sujeitos caminhavam lado a lado. Enquanto um não se cansava de elogiar a beleza do céu estrelado, do outro só se ouviam reclamações sobre os buracos e as pedras do caminho. Esta narrativa demonstra que é através da nossa percepção é que nos posicionamos no mundo, se de forma positiva ou negativa. Isso significa que somos os únicos responsáveis por sermos do jeito que somos. Tudo passa pela questão do livre-arbítrio, da capacidade de tomar decisões.

A natureza nos revela muitas lições que podemos utilizar para estabelecer uma postura mais realizadora e positiva na vida. Uma delas é a capacidade de recriação. Os cientistas denominam a isso de auto-organização. E que na dimensão humana eu costumo associar com a nossa capacidade de decisão.

Observemos o período prolongado da seca. A mata, ressentindo do calor e da falta de água, dá a impressão de que as plantas ali não resistirão. No entanto, nas primeiras gotas de chuva o potencial de vida é estimulado. Já no dia seguinte ao da chuva constataremos os verdes brotos viçosos rompendo o solo, alterando o que até então era uma paisagem cinzenta e desoladora. A vida se auto-organizando, recriando, renascendo das cinzas!

Na realidade humana, encontramos exemplos fabulosos de pessoas que enfrentaram uma situação devastadora, tendo conseguido não somente superá-la, mas tendo elas recriado a si mesmas, conferindo-lhes um significado grandioso da vida.

Estes dias assisti a entrevista de João Carlos Martins, um dos mais talentosos instrumentistas que o Brasil já teve. Para se ter uma ideia de seu talento, tocou com as maiores orquestras americanas, além de gravar a obra completa de Bach para piano.

Tragicamente teve, por forças misteriosas do destino, a sua carreira de pianista interrompida por várias vezes. A primeira interrupção aconteceu quando teve um nervo da mão direita rompido jogando futebol em Nova York. Mesmo diante das perspectivas nada favoráveis, decidiu manter-se firme no seu propósito de retornar aos concertos.

Depois da cirurgia e um longo processo de tratamentos, retornou aos concertos, mas sem poder contar com os movimentos perfeitos de sua mão.

Tempos depois, contraiu LER devido aos longos períodos de estudos e práticas que se submetia diariamente. Chegou a abandonar a carreira. Mas a sua paixão pela música foi mais forte que as limitações físicas, decidiu retornar. Para isso, desenvolveu uma forma de executar suas peças utilizando apenas a mão esquerda.

E o destino novamente impôs-lhe uma restrição. Ao ser assaltado na Bulgária, recebera um golpe na cabeça que acabou originando dores intensas em suas mãos, principalmente na esquerda. Ao invés de parar, decidiu se submeter aos tratamentos e treinamentos para poder tocar com os dedos que podia usar de cada mão. E foi o que aconteceu.

Mas o tempo foi impondo gradativamente as restrições até que se viu forçado a renunciar ao piano, mas não renunciou o seu amor pela música. Decidiu tornar-se maestro. E novamente a sua decisão lhe confere um prêmio. Em Maio de 2004, fez a sua estréia regendo a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestra de câmara do mundo, com uma ressalva: incapaz de segurar a batuta e virar as páginas da partitura, João Carlos faz um trabalho minucioso de decorar as partituras!

Atualmente, João Carlos Martins realiza um trabalho de iniciação à música com jovens carentes no Brasil.

Na entrevista, fica bem evidente a sua postura positiva e de abertura em relação à vida. Revelando um senso de humor incrível, brincou: antes eu chegava a tocar vinte e uma notas em um segundo, hoje toco uma nota em vinte e um segundo.

Rolando Toro, criador do Sistema Biodanza, afirmou que somos pavorosamente livres. Tal pavor se deve, em grande parte, ao medo de se decidir em relação a um dilema, a uma escolha, uma vez que isso significa correr riscos. O irônico é que não tomar nenhuma decisão também é uma decisão.

É através das decisões que seguimos adiante na jornada pela vida. A decisão abre as portas da realidade. Que realidade você deseja adentrar? Uma realidade rica ou pobre de alegria, satisfação e criatividade?

Ninguém pode decidir por você e tampouco pode impedir de você decidir o que quer, a não ser que você permita. Não decida em se tornar uma natureza morta.

Maternal - Escola

A importância da pré-escola
Alfabetização a princípio significa o domínio da leitura e da escrita, mas esse domínio é na verdade a conclusão de um longo processo. Para que uma criança seja alfabetizada, é preciso que ela passe antes por uma série de etapas em seu desenvolvimento, tornando-se então preparada para a aquisição da leitura e da escrita. Essas etapas compõem a chamada "fase pré-escolar" ou "período preparatório". O processo de alfabetização, é bastante complexo para a criança, por isso a importância de se respeitar o período preparatório, que dará a criança o suporte necessário para que ela prossiga sem apresentar grandes problemas. Uma criança sem o preparo necessário, pode apresentar durante a alfabetização, dificuldades relacionadas à coordenação motora fina e à orientação espacial, não sabendo por exemplo, segurar o lápis com firmeza, unir as letras enquanto escreve, ou como posicionar a escrita no papel. Pode ainda ter problemas para identificar os fonemas e associá-los aos grafemas. Também é possível encontrar crianças que só sabem copiar textos, e durante um ditado, não conseguem escrever. Podemos falar também sobre as dificuldades de interpretação de texto, de compreensão, de raciocínio lógico e ainda nas dificuldades emocionais. Complexos de inferioridade, insegurança, medo de situações novas, medo de ser repreendida, medo de errar, de não corresponder às expectativas dos pais, apatia, indiferença ou indisciplina e revolta, problemas de socialização, baixa auto-estima, e outros. O período propício para a alfabetização é entre os 6 ou 7 anos. Segundo Freud, é a chamada "fase latente", quando a criança já não tem mais interesses relacionados à descoberta do próprio corpo e do sexo oposto, bem como suas relações, e pode ter toda a sua atenção voltada para a aprendizagem por que esses interesses só voltam a se manifestar na puberdade. O processo de alfabetização pode chegar à 2 anos dependendo da maturidade, do preparo, do ritmo da criança e do quanto foi estimulada. Este é o período adequado para que a criança tenha completo domínio da leitura e da escrita, havendo a necessidade daí por diante do aperfeiçoamento da ortografia, da gramática e a estimulação constante da compreensão, interpretação e produção de textos. Além de tudo isso, uma boa alimentação, boa saúde, tempo de sono respeitado com horários regulares e um ambiente de tranquilidade, segurança e amor entre a família, intergração entre a família e a escola, facilitam muito a superação do período de alfabetização com bastante êxito.
Falando agora do período preparatório, precisamos levar em consideração que para ser alfabetizada, uma criança precisa antes de tudo ter uma auto-estima elevada, precisa estar bem emocionalmente, ter segurança e auto-confiança, para poder enfrentar as dificuldades que o processo de alfabetização irão lhe impor. Além disso, a criança precisa apresentar características de socialização. Seja qual for o seu temperamento, ela deve saber se portar em grupo, respeitar as pessoas, saber quais são seus limites, ter disciplina, estabelecer boa comunicação, ir aos poucos adquirindo independência e responsabilidade, saber ganhar e saber perder, ter boas maneiras, etc. Depois disso, a criança deve apresentar um bom desenvolvimento motor e dominância lateral definida. Isso significa que ela deve brincar muito, exercitar-se através de jogos e brincadeiras que estimulem as percepções sensoriais (gustativa, olfativa, visual, tátil e auditiva). Deve dominar seus movimentos corporais com habilidade e segurança, deve conhecer seu corpo, seus limites, ter postura, equilíbrio, reflexos e raciocínio lógico bem desenvolvidos. Por isso a importância das, brincadeiras de rua, de jogar bola, andar de bicicleta. rolar na grama, brincar com areia, nadar, correr, pular, etc. Isso é o que chamamos de coordenação motora global. O próximo passo, é o desenvolvimento da coordenação motora fina. A criança se desenvolve nesse sentido quando desenha ou pinta com todos os tipos de lápis, pincéis, quando usa tesouras ou quando pinta com os próprios dedos. Quando rasga, amassa ou pica papéis, quando brinca com jogos de encaixar e montar, enfim, são atividades que limitam-se mais ao uso das mãos, associadas ao raciocínio, à percepção sensorial e à concentração. Também são pré-requisitos importantes o desenvolvimento da capacidade de concentração, o desenvolvimento da memória e do raciocínio lógico e abstrato. Estes podem ser aprimorados com brinquedos e programas educativos, músicas, histórias, filmes infantis, livros, conversas informais, e tantas outros recursos. Toda e qualquer atividade estimula o cérebro, e quanto mais estimulado, melhor é o desempenho da criança em todo o processo de aprendizagem. Além de tudo isso a criança precisa sem dúvida apresentar bom desenvolvimento físico e boa saúde. Por causa de todo esse aprendizado é importante que as crianças frequentem a pré-escola. Os pais devem estar atentos quanto a escolha de uma, por que muitas não tem a aprovação da secretaria de educação do município. São as conhecidas escolas de "fundo de quintal", onde não existem os recursos necessários para todo o desenvolvimento do período preparatório.
Uma boa pré-escola deve:
·       ser aprovada pela secretaria de educação
·       ser devidamente regularizada e fiscalizada
·       ter amplo espaço externo, com variedade de recursos para recreação
·       ser limpa e organizada
·       ter salas adequadas para idades diferentes, que devem ser limpas, arejadas, amplas e decoradas para melhor estimulação
·       ter recursos pedagógicos variados e organizados: brinquedos, jogos, ambientes de estimulação, atividades extra-curriculares
·       ter professores experientes formados em magistério e/ou pedagogia
·       ter cozinha e refeitório limpos e amplos
·       ter funcionários para limpeza: cozinha e secretaria
·       apresentar planos pedagógicos organizados e coerentes com as idades das crianças
·       ter atendimento e boa comunicação com os pais
Muitas pré-escolas se preocupam somente com a alfabetização da criança, mas é muito importante que a pré-escola se preocupe primeiramente com o desenvolvimento do período preparatório, com a estimulação de todos os pré-requisitos que já descrevemos. A escola não deve pular as etapas do desenvolvimento, isso é extremamente prejudicial e trará consequências futuras para a criança, nas áreas pedagógica, emocional ou social. Para ser alfabetizada, uma criança precisa estar madura em todos os sentidos, pois o processo de alfabetização apresenta novas etapas, e a criança deve estar preparada para vencê-las. É importante ressaltar que pré-escola não é um “depósito de crianças”, onde as crianças ficam para que os pais possam trabalhar. A pré-escola tem um papel importantíssimo no preparo da criança para a alfabetização e deve cumprir este papel com competência. É o início da formação da criança, é onde ela vai ter o primeiro contato com o processo de aprendizagem, que será a base para todos os anos de escola que ela terá no futuro. Esse contato deverá ser agradável e prazeroso, para que não gere traumas futuros. No período preparatório, a família e a escola devem caminhar juntas, auxiliando uma à outra mutuamente. A família deve estimular a criança, ajudá-la com as tarefas, participar das reuniões, estar em contato com os professores, interessar-se pela vida escolar da criança.
Para finalizar, a escolha de uma pré-escola, não é tarefa fácil, por isso os pais devem pesquisar muito, conhecer o maior número possível de pré-escolas, levando em consideração não só as suas expectativas em relação à escola, mas principalmente as da criança, procurando por uma boa escola, que seja adequada às necessidades dos seus filhos, que ofereça bom ambiente e bons serviços. É importante lembrar que a pré-escola é o começo da longa caminhada escolar de seus filhos, por isso, deve ser um bom começo, que proporcione alegria e satisfação para a criança, afinal... “a primeira professora a gente nunca esquece.”